Ele tem G6PD

– Alô é a Sra. Carolina?

– Sim é ela, quem fala?

– Aqui é a fulana, do laboratório tal, eu estou com o resultado do teste do pezinho do seu filho, o Arthur.

– Ah sim, estou tentando acessar pela internet e não consigo ver o resultado.

– Pois então, o resultado apontou uma deficiência, nós vamos precisar refazer um dos testes pra confirmar e só então vamos poder liberar o resultado.

– Que deficiência???

– Eu não posso estar informando pra senhora, o teste é o G6PD, a senhora pode entrar em contato com o seu pediatra pra que ele explique melhor.

Meu mundo caiu, ali naquela hora, só consegui desabar e olhar meu filho que se mexia faceiro dentro do carrinho. Não sabia o que era o tal teste G6PD, nunca tinha escutado falar, só sabia que meu filho tinha uma “deficiência”. Olhava pra ele e não fazia sentido, com um pouco mais de uma semana de vida ele me parecia um bebê normal.

Queria matar a moça do laboratório. “Como assim, liga pra mim, diz que meu filho tem uma deficiência e não me explica nada, na maior frieza e falta de noção”. Ao mesmo tempo saí pesquisando sobre o tal G6PD, na hora do desespero, nenhuma informação parecia fazer sentido pra mim. Até que li “as vezes acusa quando o bebê está amarelinho na primeira semana, pode ser que quando repita o exame dê outro resultado”.  Arthur tinha ficado amarelinho na primeira semana, o teste de bilirrubina não chegou a ser tão alto a ponto que ele precisasse de fototerapia, tratamos com banho de sol.

Me tranquilizei, no mesmo dia refizemos o teste. O resultado sairia no dia 26 às 18h. Nesse dia pontualmente tentei acessar os resultados e não consegui. Não consegui também no dia seguinte, nem depois e depois. Briguei com o laboratório, rodei a baiana, até que me ligaram avisando que eu poderia ir buscar o resultado lá.

Hoje eu fui, sozinha com o Arthur. Peguei o envelope e vim pra casa, com medo de abrir. No caminho, angustiada, fiquei lembrando do momento em que eu o vi pela primeira vez, e como uma boba, contei os dedinhos dos pés e das mãos, como se aquela fosse a minha certeza de que tava tudo bem, tudo saudável.

Conversei com o Jaciel, disse que tava com medo de olhar, até que ele me convenceu, abri o envelope e tava lá o resultado que eu não queria ver. O número era baixo e não ficava entre os valores de referência. Ainda sei muito pouco sobre G6PD, sei que perto de tantas outras complicações que existem, a G6PD é moleza. Ao mesmo tempo, não deixo de me sentir sem chão.

Tudo o que eu sei é que a G6PD é uma deficiência enzimática, a mais comum no mundo, que afeta cerca de 400 milhões de pessoas. A G6PD é uma enzima presente em todas as células, e tem como finalidade auxiliar na produção substâncias que as protegem de fatores oxidantes. Ao contrário das outras células, os glóbulos vermelhos dependem exclusivamente da G6PD para esta finalidade. A deficiência pode ser encontrada em até 20% da população na África, entre 4% e 30% nas populações do Mediterrâneo, e no sul da Ásia. No caso, eu tenho descendência africana. A doença é genética e já foram identificadas mais de 440 variações do gene da G6PD, que está localizado no cromossomo X. Como os homens têm um cromossomo X e um cromossomo Y, um único gene anormal no cromossomo X herdado da mãe provoca a deficiência de G6PD.

Na prática, quem tem  deficiência de G6PD leva uma vida normal, tem seu desenvolvimento normal, mas precisa evitar determinados medicamentos, como a aspirina, sulfonamidas e quininos, alguns alimentos, como o feijão de fava, a soja e alguns corantes. Assim como quem tem alergia a alguma coisa. Quem tem G6PD pode não apresentar nenhum sintoma caso essas substâncias sejam evitadas, é como se elas fossem o gatilho pra doença, se utilizadas podem causar estresse oxidativo nos glóbulos vermelhos, que não tem a defesa da enzima, resultando em uma crise hemolítica (anemia) e icterícia (o caso do Arthur, logo que nasceu ele tomou vitamina K no hospital, que é dada pra todos os bebês, a vitamina K é uma dessas substâncias consideradas gatilhos). Além das substâncias, infecções bacterianas e virais também podem causar o aparecimento dos sintomas. Ou seja, toda a alimentação e a vida do Arthur vão precisar de um cuidado extra, dependendo do nível da deficiência enzimática dele (que a gente ainda não sabe qual é), pegar uma gripe ou tomar o medicamento errado pode gerar uma complicação muito grave. A lista de medicamentos e alimentos com essas substâncias é bem extensa, os alimentos me preocupam mais, afinal quase tudo tem corante e soja. Já a partir de agora, toda a minha alimentação vai ter  que ser diferente, evitando essas substâncias pra que nada passe pelo leite.

Apesar de já ter um pouco de informação, ainda não sei dizer como eu tô lidando com tudo isso, ainda não sei se entendi muito bem do que se trata. Só sei que meu dia acabou hoje, olho pro meu bebê e tenho vontade de chorar, me sinto culpada por ter “passado” esse maldito gene pra ele, embora eu saiba que isso é inevitável e não é minha culpa, está totalmente fora do meu alcance. Sempre ouvi minha mãe dizer que tinha o coração batendo fora do corpo, e a sensação é exatamente essa, quero proteger ele mais do que qualquer coisa no mundo. Coração de mãe sofre.

Ao mesmo tempo que me sinto triste e arrasada, eu sei que nada disso vai mudar o resultado, o que pode mudar alguma coisa agora é a minha força, a minha coragem, e a busca pelas informações. Quero saber tudo e mais um pouco sobre G6PD, quero decorar a tal lista de substâncias pra que nunca na vida dele ele passe por uma dessas crises de anemia.  Liguei pra praticamente todos os hematologistas de Porto Alegre, essa semana vou conversar com alguns deles e espero entender melhor do que se trata. Amanhã, temos consulta com a pediatra, espero que de lá eu já saia com mais informações do que tenho agora.

Se alguém tem filho com G6PD, ou conhece outras pessoas que passem pela mesma situação, por favor, entrem em contato comigo. Quanto mais ajuda e informações sobre o que fazer e como é a vida das crianças que tem, vai me ajudar muito.

Uma pausa pra babar

Sim, somos pais babões ❤

E gostamos de compartilhar a babação por aí.

Esse é o primeiro vídeo que fazemos do Arthur e esses são seus primeiros sorrisinhos, fora aqueles que ele dava quando tava pegando no sono.

27 dias de pura simpatia, mamãe ama!

Tô viva!

Apesar da aparência de zumbi, eu tô viva! Tava morrendo de saudade de escrever aqui, acontece que fazer isso com uma mão só não está sendo fácil, fora a dificuldade de sair do completo estado de hipnose que eu fico vendo meu filhote.

Fiquei muito feliz com a repercussão do meu relato de parto, tentei lembrar de cada detalhe pra que ele pudesse ajudar outras mulheres e trazer cada vez mais o parto natural pras nossas rodas de conversa. Por mais que eu sempre tentasse falar sobre o assunto durante a gravidez, nada como a própria experiência pra chamar mais atenção pro tema. Desejo que todas as mulheres do mundo vivam um parto natural e com respeito, é uma experiência que muda a vida, posso afirmar com toda a certeza que a minha relação com o Arthur e com o Jaciel não seria a mesma se não tivéssemos juntos vivido esse parto, fomos ao encontro um do outro.

Além de tudo isso, escrever o relato foi de uma emoção enorme e eu leio ele e assisto o vídeo sempre que posso mais uma vez pra reviver toda aquela experiência, é como se toda aquela ocitocina voltasse a circular no meu corpo. ❤

Enfim, o post hoje é pra contar como está sendo o dia a dia por aqui e dar uma atualizada geral. Já faz uma semana que o Jaciel voltou a trabalhar e desde então tem sido eu e Arthur, Arthur e eu, juntinhos! Passei o tempo todo que o marido tava em casa morrendo de medo de ficar sozinha com o baby, tava bolando mil planos pra conseguir me virar em mil e conseguir dar jeito em tudo.

E aí que eu errei, errei rude. Não tem como ser Mulher Maravilha e tentar dar um jeito em tudo.

581210_10202223544251134_1862764306_n

No fim das contas, deu tudo certo, por mais que a gente ache que não, a gente sabe sim o que fazer com o próprio filho. O Arthur passa literalmente o dia todo pendurado na teta, eu acho ótimo, adoro amamentar, não controlo as mamadas dele e não pretendo substituir meu seio por um bico (assunto pra um próximo post, prometo!), então, é preciso ter paciência, aproveito quando ele dorme pra dar um jeitinho nas coisas que são mais urgentes, tipo lavar as roupinhas dele, ajeitar o quarto, etc.

1235183_10202238562586583_1864286123_n

Como disse, não tem como dar conta do bebê, de ti e da casa, um conselho é não perder tempo pensando nisso e encanando com visitas que vão ver a casa fora de ordem, por aqui os amigos e a família já sabem, vai estar tudo bagunçado e eu agradeço muito uma lavada na minha louça, rs.

Passado o pânico de “MEU DEUS COMO AS MULHERES DO MUNDO CONSEGUEM VIVER CUIDANDO DE SEUS FILHOS E DA CASA”, as coisas ficaram melhores. A cada dia o Arthur se desenvolve mais, agora percebo que ele já tem uma rotina própria, isso facilita muito porque já sei mais ou menos os horários que vou conseguir almoçar com calma (e com as duas mãos), por exemplo. Durante o dia consegui fazer com que ele durma no carrinho, antes ele só dormia no colo e eu ficava mais presa. De noite, continuamos compartilhando a cama e estamos dormindo cada vez melhor, os três. De manhã quando o Jaciel sai pra trabalhar, o Arthur acorda pra uma mamada e depois eu ele voltamos a dormir, bem coladinhos <3. Essa dormidinha da manhã tem dado uma boa recarregada nas minhas energias. Acho que dormia umas três horas todos os dias, acontecia de acordar pra amamentar na madrugada e não conseguir pegar no sono profundo depois.

Outra alegria é que ele tem se interessado por alguns brinquedinhos, o móbile que ele tem no berço ajuda com que ele fique ali um pouquinho acordadinho, o ginásio com os móbiles é outra preferência dele, fica acompanhando tudo com o olhar, nos últimos dias ele até tentou se coordenar pra tocar nos brinquedinhos, e eu: QUÁMORRI de emoção.

558203_10202187741236081_1784068140_n

Fora isso, ele adora que eu fique falando o tempo todo, o tempo que ele fica acordado sem estar mamando tá um pouco maior e ele exige interação, o que eu adoro e acho demais, se paramos de falar com ele, ele dá umas resmungadinhas. Tô me sentindo aquelas “dance moms” toda orgulhosa das pequenas façanhas do filho, mas ai gente, ELE É DEMAIS!

Com essa rotina boa que conseguimos, agora acho que consigo retomar o blog – até que uma nova fase chegue e tudo vire de ponta cabeça. Tenho uma dificuldade de falar de várias coisas em um mesmo post porque gosto de dar atenção adequada aos assuntos e explorar o máximo que eu puder, por isso prometo retomar coisas que falei aqui, só achei que antes de começar a falar de coisa por coisa precisava dar uma atualizada geral em tudo.

 

Relato de Parto: Como o Arthur veio ao mundo

A semana começou e eu mal sabia que aquela seria a última em companhia do barrigão. Na terça-feira, dia 27, perto das 18h, senti um líquido escorrer. Veio vindo aos poucos, achei que pudesse ser a bolsa. Liguei pro marido e ele saiu correndo do trabalho e veio direto pra casa. Logo liguei pra minha doula, a Zezé, e o pro meu obstetra, Dr. Ricardo Jones. Quis tirar a dúvida, sempre achei que quando a bolsa estourava era um chuá sem fim, mas vai saber. Ambos falaram que existia a possibilidade, então ficamos monitorando pra ver se surgiam contrações, e nada. Mais tarde, com suspeita de bolsa rota e sem contrações, recebi a visita da Zezé e da Zeza, enfermeira obstetriz.

Alarme falso. Nada mais era do que um corrimento normal do fim da gestação em maior quantidade.

Fiquei frustrada. Nesse alarme falso, o Jaciel acabou recebendo liberação do trabalho pra já ficar a postos, sem dúvida isso me ajudou a relaxar e ficar mais tranquila no finzinho da gestação. Me senti mais segura pois não estava sozinha em casa. Aproveitamos esses dias pra caminhar, a semana era de chuva e fomos bater perna dois dias no shopping. De vez em quando sentia umas contrações, ficavam algum tempo com ritmo e de repente sumiam; eu já estava assim desde o último domingo. Os pródomos me deixaram maluca, criava a expectativa do trabalho de parto e ele nunca chegava.

Na quinta-feira, dia 29, recebemos os pais do Jaciel pra uma janta. Passei o tempo todo deitada em um colchão de solteiro que colocamos na sala, sentia as contrações mais doloridas, com um certo ritmo. Fiquei quietinha a maior parte do tempo pra não criar nenhuma situação de alarde, e no fim das contas, ainda não era o trabalho de parto. Na sexta-feira o bicho começou a pegar. Muitas contraçõescom variações de 10 em 10 minutos. Elas ainda eram bem curtinhas, mas muito doloridas. Quando a noite chegou eu não encontrava posições pra lidar com as dores, me sentia enjoada, já tinha ido ao banheiro várias vezes. Então concordamos em chamar a Zezé e já avisar a Zeza e o Ricardo: parecia que aquela era finalmente a hora.

Logo que a Zezé chegou, começamos a contar as contrações e encontrar posições pra que as dores fossem mais suportáveis. Com elas cada vez mais doloridas e eu cada vez mais cansada, a partir daí a minha memória começa a se confundir, não tenho noção de tempo e nem muita certeza da ordem dos fatos. Fiquei horas no chuveiro, acho que entrei e sai umas três vezes durante a noite. O Ricardo estava viajando e voltaria no sábado, caso o Arthur chegasse nesse meio tempo eu teria que entrar em contato com outra obstetra que eu não conhecia. Durante a noite a Zeza chegou, ficamos monitorando o bebê e as contrações, até aquele momento não tinha nem sinal da bolsa, nem do tampão, nada. Na minha cabeça eu ficava pensando porque eu sentia tanta dor e nada acontecia. Pela manhã eu estava exausta. A Zezé sugeriu que eu me deitasse, apesar de ser a pior maneira de suportar a dor das contrações ela achou melhor que eu tentasse recarregar as energias já que as contrações começaram a espaçar bastante.  Dormi a manhã toda de sábado entre uma dor e outra. Como o tempo entre uma e outra estava bem grande, Zezé e Zeza perguntaram como eu me sentia, disse que estava melhor, que as contrações tinham diminuído de intensidade, e concordamos que elas podiam ir embora,  antes disso a Zeza fez um exame de toque e eu estava com 2 para 3cm de dilatação.

Nesse momento eu fiquei feliz, afinal de contas eu achava que tinha passado o tempo todo com dores em vão. Logo que elas saíram, perto das 11h, eu e Jaciel dormimos mais um pouco. Não lembro que hora eu acordei, só lembro que as dores estavam muito fortes e cada vez mais próximas uma da outra. Pra atrapalhar, sentia uma dor na perna esquerda que era insuportável, resultado de alguma compressão no meu nervo ciático. Não tinha vontade de comer nada e não sabia o que doía mais, se era a perna ou as contrações. Não conseguia fazer xixi, a cada sentada e levantada do vaso tinha que pedir ajuda pro Jaciel, as fisgadas na perna ficavam cada vez mais insuportáveis.

Passei o dia assim, com duas dores diferentes. Enquanto as contrações passavam eu ficava com a dor na perna no pequeno intervalo entre elas. Fui ficando exausta, passei o dia no chuveiro, na bola, em pé, tentei ficar em várias posições diferentes e a maldita perna me atrapalhando. O único jeito que ela não doía era quando eu ficava deitada, mas desse jeito as dores das contrações ficavam mais fortes. Eu já começava a pensar que não ia conseguir, impossível eu estar sentindo tanta dor e nada estar acontecendo, já tinha sido uma semana inteira de falsos alarmes, se aquele não era o dia do meu trabalho de parto eu não queria nem ver o que seria o trabalho de parto de fato. Nesse momento eu comecei a pirar, dizia pro Jaciel que eu não aguentava mais, que nada acontecia, eu queria um remédio pra dor na perna, e dizia que era aquela dor que não deixava o Arthur chegar. O Jaciel continuou firme, me apoiou, dizia que eu conseguia sim e me ajudava massageando a perna e as minhas costas quando vinham as contrações. A noite anterior assistindo a Zezé me ajudando serviu de escola pra ele passar aquele sábado comigo. Ele foi perfeito, o apoio que eu precisava na medida certa.

Quando chegou a noite pedi ajuda pro Jaciel pra ir ao banheiro mais uma vez. Na hora de fazer xixi, senti que eu tinha que fazer uma forcinha, e assim veio, o tampão inteiro de uma vez só. Na hora senti água escorrendo e chegamos a conclusão de que a bolsa e o tampão tinham saído juntos. Nessa hora me bateu a adrenalina e fiquei muito feliz, afinal de contas eu achava que estava sentindo todas aquelas dores em vão, finalmente tive a certeza de que estava em trabalho de parto.

Ligamos pra Zezé, e em seguida ela chegou, disse que a Zeza ia buscar o Ricardo na rodoviária e logo os dois estariam ali. Me senti aliviada, equipe completa. A Zezé tentava de todos os jeitos aliviar a minha dor, a da perna, a essa altura do campeonato ela me incomodava mais do que as contrações. Minha concentração tava toda naquela dor, pra mim ela era a culpada do meu sofrimento. No chuveiro, sentada na bola de pilates com a água quente correndo eu só conseguia dizer que não aguentava a tal dor. Comigo no banheiro estavam a Zezé e a Zeza. Esse é um dos momentos mais marcantes pra mim, o qual ouvi a Zeza dizendo: “Carol, escuta o que essa dor tem pra te dizer e põe pra fora”. Não consegui dizer o que passou pela minha cabeça em voz alta, eram muitas coisas, pensamentos sobre mim mesma, sobre a relação complicada que tenho com meu pai, não consegui dizer coisa por coisa, mas consegui externalizar o que pensava gritando, xinguei muita gente a cada grito, me livrei de alguns conceitos que eu tinha de mim mesma, naquele momento eu comecei a me livrar das dores da minha alma, que agora, olhando pra trás, vejo que depositei naquela perna.

Resolvi que não queria mais chuveiro, me senti mais arredia, mau humorada, eu tava puta da cara comigo, com a vida, eu percebi que aquelas dores da alma, que aquela dor na perna, foram as razões pra que eu sempre desistisse das coisas no meio do caminho. Eu estava prestes a desistir de um parto que eu tinha me preparado muito, por causa da dor na perna, eu sentia que eu não me deixava viver o momento pensando naquela dor, aquele não era pra ser o meu foco. Eu achava que tinha me preparado o suficiente mentalmente, mas existem coisas que se escondem tanto na nossa cabeça que só em um momento como esse é que conseguimos acessar e jogar fora.

Logo que saí do banho, o Ricardo sugeriu que fizéssemos um exame de toque. Ele disse:

– Esse bebê…

Fez uma pausa, e eu pensei “Ai meu deus, o que pode ter dado errado?” (sempre pessimista a Carolina). Então ele seguiu:

– …Está bem baixo. Teu colo já dilatou 8cm, temos que ir pro hospital agora”.

Foi a injeção de ânimo que eu precisava. Me enchi de energia de novo, senti novamente aquela euforia que senti quando vi o tampão e a suposta bolsa. Aquela era a hora: faltava pouco pra eu ver meu bebê e eu não via a hora desse momento chegar.

Na saída de casa foi uma correria, eu tinha deixado a mala do Arthur pronta com semanas de antecedência, em compensação eu não tinha colocado nada dentro da minha própria mala. Só vi o Jaciel correndo pela casa pegando tudo que a gente podia precisar, e ainda escolhendo uma roupa pra eu ir pra maternidade. Essa hora foi engraçada, porque ele surgiu com um vestido de festa e uma alpargata. E assim eu fui, com esse look maravilhoso ao encontro do meu filho. Pra ajudar a situação a ficar mais tragicômica, o controle do portão do prédio não abria de jeito nenhum pra gente sair com o carro. Acabei indo no carro do Ricardo com a Zezé e a Zeza, nos 45 do segundo tempo um vizinho chegou no prédio e o Jaciel saiu com o carro atrás da gente.

Na madrugada, sem trânsito, chegamos rapidamente ao Hospital Divina Providência.

Se eu já não lembrava de muita coisa até o hospital, a partir desse ponto eu não lembro de quase nada. Entrei em um mundo só meu, contando agora é como se eu assistisse tudo de longe. Continuei colocando as dores pra fora, deixando o som sair, acho que xinguei Deus e todo mundo, falei todos os palavrões possíveis. Por mais algumas vezes eu disse que não ia conseguir. Eu brigava mentalmente com a Carolina pessimista, com a Carol que ia desistir, pensava que cada vez mais o espaço pra essa Carolina deixava de existir, pra ter o meu filho eu precisava ser muito mais do que aquela menina, eu tinha que finalmente ser mulher. De repente senti que eu precisava fazer força. Tentei ficar de cócoras como eu sempre quis mas não consegui, subi na cama pra ficar em quatro apoios e não consegui novamente, não sei de que forma, acabei de lado na cama, coloquei os pés no ferro de apoio e então esqueci de tudo. Nada passava pela minha cabeça, não tinha dor, só tinha vontade de trazer o Arthur pra mim. Olhava pro Jaciel e ele dizia com os olhos marejados “tá quase amor, tu vai trazer o xuxuzinho pra gente”. De repente escutei alguém dizer “ele tá dentro da bolsa, a bolsa não estourou”. Quase simultaneamente senti ele escorregar suavemente, sem dor alguma, sem um corte, sem nenhuma laceração. Não acreditei no que tava acontecendo. Finalmente vi meu Arthur, perfeito, o mundo silenciou e eu só escutava ele colocando a boca no mundo, o choro dele era como música, nunca mais vou esquecer, veio direto pro meu peito e a gente já sabia o que fazer, naturalmente.

Naquele momento eu era completa, não existia mais ninguém no mundo além de nós três. Eu mal podia acreditar que eu tinha conseguido ter meu parto do jeito que eu sempre quis, eu trouxe meu filho pra mim. Não tinha dor alguma, só felicidade, um estado de êxtase inexplicável, eu era mais uma daquelas mulheres poderosas, eu era finalmente a mãe do Arthur e ali eu decidi e percebi que não tem nada nessa vida que eu não possa fazer por ele.

7883_648189155200723_391174940_n

Como anda a vida

Já se passaram oito dias de vida do Arthur fora da minha barriga, nesse meio tempo ele já perdeu seu umbiguinho, tomou banho de balde, recebeu algumas poucas visitas, não passa um dia sem ver um de seus avós, concentra o olhar atentamente na gente enquanto conversamos com ele e claro, acha que a vida é um par de tetas.

1185596_651205058232466_1965960841_n 1003382_649614778391494_1857715840_n 1006047_650683811617924_2045315804_n (1)

E vai ver é mesmo né? hehehe. Deixo ele mamar em livre demanda e odeio ver meu pequeno chorando, por isso respeito acima de tudo as necessidades dele, principalmente nesse primeiro momento onde a gente sabe que tudo é novo para os bebês e algumas coisas são até mesmo sofridas.

Não está sendo fácil, por sorte o papai ganhou uma licença estendida no trabalho (todas comemora!) e aos poucos estamos nos adaptando. Nenhum dia é igual ao outro, pra começar, tem muita coisa que a gente tinha pensado que ia funcionar de uma certa maneira e acabou que nada saiu como o planejado.

Arthur nem viu a cor do seu quarto, que dirá o lindo berço. O carrinho que era a primeira opção de cama nesse comecinho, ele não conseguiu gostar muito ainda (nesse momento comemoramos os 3 minutos que ele tá passando no carrinho sem chorar). Só quer colo, teta e conversa, e foi assim que optamos pela cama compartilhada. Nosso quarto acabou virando quarto de bebê também, a cômoda se mudou pra lá ajudando nas trocas de fralda da madrugada.

Ai ai, a madrugada, cheia de surpresas. Eu andava me gabando que ele acordava só pra mamar e pegava no sono de novo, até ontem, passamos a noite em claro com o pequeno que só queria ficar mamando e passeando no colo do pai pela casa.

Somos o casal zumbi, mas nem dá pra reclamar vendo essa carinha todo dia né?

1011909_651528421533463_1744368185_n
AHHHHH ME DERRETO TODA! Tudo isso que escrevi foi só pra dizer: Como é bom ser mãe! Como eu amo a minha família! ❤

Cheguei!

Estou nas nuvens, meu filho chegou na madrugada do dia 1º de setembro do jeito que eu sempre quis, com o maior respeito, amor e carinho. Sem palavras pra descrever cada segundo dos meus últimos dias, é como se a vida tivesse um novo começo.

Logo que as coisas se acomodarem eu prometo escrever meu relato de parto e contar com calma como estão sendo esses primeiros dias. Nascemos como uma família, eu como mulher, mãe, e Jaciel como um homem e pai (um pai maravilhoso por sinal).

Obrigada a todos os amigos e familiares pelas palavras de carinho e as felicitações! Já estamos em casa e logo mais a gente avisa quando o Arthur estiver pronto pra receber as visitas.

996573_539377906136127_1739455618_n (1)