Relato de Parto: Como o Arthur veio ao mundo

A semana começou e eu mal sabia que aquela seria a última em companhia do barrigão. Na terça-feira, dia 27, perto das 18h, senti um líquido escorrer. Veio vindo aos poucos, achei que pudesse ser a bolsa. Liguei pro marido e ele saiu correndo do trabalho e veio direto pra casa. Logo liguei pra minha doula, a Zezé, e o pro meu obstetra, Dr. Ricardo Jones. Quis tirar a dúvida, sempre achei que quando a bolsa estourava era um chuá sem fim, mas vai saber. Ambos falaram que existia a possibilidade, então ficamos monitorando pra ver se surgiam contrações, e nada. Mais tarde, com suspeita de bolsa rota e sem contrações, recebi a visita da Zezé e da Zeza, enfermeira obstetriz.

Alarme falso. Nada mais era do que um corrimento normal do fim da gestação em maior quantidade.

Fiquei frustrada. Nesse alarme falso, o Jaciel acabou recebendo liberação do trabalho pra já ficar a postos, sem dúvida isso me ajudou a relaxar e ficar mais tranquila no finzinho da gestação. Me senti mais segura pois não estava sozinha em casa. Aproveitamos esses dias pra caminhar, a semana era de chuva e fomos bater perna dois dias no shopping. De vez em quando sentia umas contrações, ficavam algum tempo com ritmo e de repente sumiam; eu já estava assim desde o último domingo. Os pródomos me deixaram maluca, criava a expectativa do trabalho de parto e ele nunca chegava.

Na quinta-feira, dia 29, recebemos os pais do Jaciel pra uma janta. Passei o tempo todo deitada em um colchão de solteiro que colocamos na sala, sentia as contrações mais doloridas, com um certo ritmo. Fiquei quietinha a maior parte do tempo pra não criar nenhuma situação de alarde, e no fim das contas, ainda não era o trabalho de parto. Na sexta-feira o bicho começou a pegar. Muitas contraçõescom variações de 10 em 10 minutos. Elas ainda eram bem curtinhas, mas muito doloridas. Quando a noite chegou eu não encontrava posições pra lidar com as dores, me sentia enjoada, já tinha ido ao banheiro várias vezes. Então concordamos em chamar a Zezé e já avisar a Zeza e o Ricardo: parecia que aquela era finalmente a hora.

Logo que a Zezé chegou, começamos a contar as contrações e encontrar posições pra que as dores fossem mais suportáveis. Com elas cada vez mais doloridas e eu cada vez mais cansada, a partir daí a minha memória começa a se confundir, não tenho noção de tempo e nem muita certeza da ordem dos fatos. Fiquei horas no chuveiro, acho que entrei e sai umas três vezes durante a noite. O Ricardo estava viajando e voltaria no sábado, caso o Arthur chegasse nesse meio tempo eu teria que entrar em contato com outra obstetra que eu não conhecia. Durante a noite a Zeza chegou, ficamos monitorando o bebê e as contrações, até aquele momento não tinha nem sinal da bolsa, nem do tampão, nada. Na minha cabeça eu ficava pensando porque eu sentia tanta dor e nada acontecia. Pela manhã eu estava exausta. A Zezé sugeriu que eu me deitasse, apesar de ser a pior maneira de suportar a dor das contrações ela achou melhor que eu tentasse recarregar as energias já que as contrações começaram a espaçar bastante.  Dormi a manhã toda de sábado entre uma dor e outra. Como o tempo entre uma e outra estava bem grande, Zezé e Zeza perguntaram como eu me sentia, disse que estava melhor, que as contrações tinham diminuído de intensidade, e concordamos que elas podiam ir embora,  antes disso a Zeza fez um exame de toque e eu estava com 2 para 3cm de dilatação.

Nesse momento eu fiquei feliz, afinal de contas eu achava que tinha passado o tempo todo com dores em vão. Logo que elas saíram, perto das 11h, eu e Jaciel dormimos mais um pouco. Não lembro que hora eu acordei, só lembro que as dores estavam muito fortes e cada vez mais próximas uma da outra. Pra atrapalhar, sentia uma dor na perna esquerda que era insuportável, resultado de alguma compressão no meu nervo ciático. Não tinha vontade de comer nada e não sabia o que doía mais, se era a perna ou as contrações. Não conseguia fazer xixi, a cada sentada e levantada do vaso tinha que pedir ajuda pro Jaciel, as fisgadas na perna ficavam cada vez mais insuportáveis.

Passei o dia assim, com duas dores diferentes. Enquanto as contrações passavam eu ficava com a dor na perna no pequeno intervalo entre elas. Fui ficando exausta, passei o dia no chuveiro, na bola, em pé, tentei ficar em várias posições diferentes e a maldita perna me atrapalhando. O único jeito que ela não doía era quando eu ficava deitada, mas desse jeito as dores das contrações ficavam mais fortes. Eu já começava a pensar que não ia conseguir, impossível eu estar sentindo tanta dor e nada estar acontecendo, já tinha sido uma semana inteira de falsos alarmes, se aquele não era o dia do meu trabalho de parto eu não queria nem ver o que seria o trabalho de parto de fato. Nesse momento eu comecei a pirar, dizia pro Jaciel que eu não aguentava mais, que nada acontecia, eu queria um remédio pra dor na perna, e dizia que era aquela dor que não deixava o Arthur chegar. O Jaciel continuou firme, me apoiou, dizia que eu conseguia sim e me ajudava massageando a perna e as minhas costas quando vinham as contrações. A noite anterior assistindo a Zezé me ajudando serviu de escola pra ele passar aquele sábado comigo. Ele foi perfeito, o apoio que eu precisava na medida certa.

Quando chegou a noite pedi ajuda pro Jaciel pra ir ao banheiro mais uma vez. Na hora de fazer xixi, senti que eu tinha que fazer uma forcinha, e assim veio, o tampão inteiro de uma vez só. Na hora senti água escorrendo e chegamos a conclusão de que a bolsa e o tampão tinham saído juntos. Nessa hora me bateu a adrenalina e fiquei muito feliz, afinal de contas eu achava que estava sentindo todas aquelas dores em vão, finalmente tive a certeza de que estava em trabalho de parto.

Ligamos pra Zezé, e em seguida ela chegou, disse que a Zeza ia buscar o Ricardo na rodoviária e logo os dois estariam ali. Me senti aliviada, equipe completa. A Zezé tentava de todos os jeitos aliviar a minha dor, a da perna, a essa altura do campeonato ela me incomodava mais do que as contrações. Minha concentração tava toda naquela dor, pra mim ela era a culpada do meu sofrimento. No chuveiro, sentada na bola de pilates com a água quente correndo eu só conseguia dizer que não aguentava a tal dor. Comigo no banheiro estavam a Zezé e a Zeza. Esse é um dos momentos mais marcantes pra mim, o qual ouvi a Zeza dizendo: “Carol, escuta o que essa dor tem pra te dizer e põe pra fora”. Não consegui dizer o que passou pela minha cabeça em voz alta, eram muitas coisas, pensamentos sobre mim mesma, sobre a relação complicada que tenho com meu pai, não consegui dizer coisa por coisa, mas consegui externalizar o que pensava gritando, xinguei muita gente a cada grito, me livrei de alguns conceitos que eu tinha de mim mesma, naquele momento eu comecei a me livrar das dores da minha alma, que agora, olhando pra trás, vejo que depositei naquela perna.

Resolvi que não queria mais chuveiro, me senti mais arredia, mau humorada, eu tava puta da cara comigo, com a vida, eu percebi que aquelas dores da alma, que aquela dor na perna, foram as razões pra que eu sempre desistisse das coisas no meio do caminho. Eu estava prestes a desistir de um parto que eu tinha me preparado muito, por causa da dor na perna, eu sentia que eu não me deixava viver o momento pensando naquela dor, aquele não era pra ser o meu foco. Eu achava que tinha me preparado o suficiente mentalmente, mas existem coisas que se escondem tanto na nossa cabeça que só em um momento como esse é que conseguimos acessar e jogar fora.

Logo que saí do banho, o Ricardo sugeriu que fizéssemos um exame de toque. Ele disse:

– Esse bebê…

Fez uma pausa, e eu pensei “Ai meu deus, o que pode ter dado errado?” (sempre pessimista a Carolina). Então ele seguiu:

– …Está bem baixo. Teu colo já dilatou 8cm, temos que ir pro hospital agora”.

Foi a injeção de ânimo que eu precisava. Me enchi de energia de novo, senti novamente aquela euforia que senti quando vi o tampão e a suposta bolsa. Aquela era a hora: faltava pouco pra eu ver meu bebê e eu não via a hora desse momento chegar.

Na saída de casa foi uma correria, eu tinha deixado a mala do Arthur pronta com semanas de antecedência, em compensação eu não tinha colocado nada dentro da minha própria mala. Só vi o Jaciel correndo pela casa pegando tudo que a gente podia precisar, e ainda escolhendo uma roupa pra eu ir pra maternidade. Essa hora foi engraçada, porque ele surgiu com um vestido de festa e uma alpargata. E assim eu fui, com esse look maravilhoso ao encontro do meu filho. Pra ajudar a situação a ficar mais tragicômica, o controle do portão do prédio não abria de jeito nenhum pra gente sair com o carro. Acabei indo no carro do Ricardo com a Zezé e a Zeza, nos 45 do segundo tempo um vizinho chegou no prédio e o Jaciel saiu com o carro atrás da gente.

Na madrugada, sem trânsito, chegamos rapidamente ao Hospital Divina Providência.

Se eu já não lembrava de muita coisa até o hospital, a partir desse ponto eu não lembro de quase nada. Entrei em um mundo só meu, contando agora é como se eu assistisse tudo de longe. Continuei colocando as dores pra fora, deixando o som sair, acho que xinguei Deus e todo mundo, falei todos os palavrões possíveis. Por mais algumas vezes eu disse que não ia conseguir. Eu brigava mentalmente com a Carolina pessimista, com a Carol que ia desistir, pensava que cada vez mais o espaço pra essa Carolina deixava de existir, pra ter o meu filho eu precisava ser muito mais do que aquela menina, eu tinha que finalmente ser mulher. De repente senti que eu precisava fazer força. Tentei ficar de cócoras como eu sempre quis mas não consegui, subi na cama pra ficar em quatro apoios e não consegui novamente, não sei de que forma, acabei de lado na cama, coloquei os pés no ferro de apoio e então esqueci de tudo. Nada passava pela minha cabeça, não tinha dor, só tinha vontade de trazer o Arthur pra mim. Olhava pro Jaciel e ele dizia com os olhos marejados “tá quase amor, tu vai trazer o xuxuzinho pra gente”. De repente escutei alguém dizer “ele tá dentro da bolsa, a bolsa não estourou”. Quase simultaneamente senti ele escorregar suavemente, sem dor alguma, sem um corte, sem nenhuma laceração. Não acreditei no que tava acontecendo. Finalmente vi meu Arthur, perfeito, o mundo silenciou e eu só escutava ele colocando a boca no mundo, o choro dele era como música, nunca mais vou esquecer, veio direto pro meu peito e a gente já sabia o que fazer, naturalmente.

Naquele momento eu era completa, não existia mais ninguém no mundo além de nós três. Eu mal podia acreditar que eu tinha conseguido ter meu parto do jeito que eu sempre quis, eu trouxe meu filho pra mim. Não tinha dor alguma, só felicidade, um estado de êxtase inexplicável, eu era mais uma daquelas mulheres poderosas, eu era finalmente a mãe do Arthur e ali eu decidi e percebi que não tem nada nessa vida que eu não possa fazer por ele.

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17 thoughts on “Relato de Parto: Como o Arthur veio ao mundo

  1. Parabéns pelo teu empoderamento!
    Cada vez que nós, tentantes e/ou gestantes ativistas em prol do parto humanizado lemos um relato tão lindo como esse, é muito reconfortante. Pois aí reforçamos nosso pensamento de que não somos as ‘índias/loucas/xiitas’ que querem porque querem um parto natural respeitoso, que querer é poder, basta ir em busca de informação, conhecimento, amparo…
    Parabéns mais uma vez, a você e ao seu esposo que esteve o tempo todo ao teu lado te apoiando.

    Muito leite e muito amor pra vocês três!!

  2. Que lindo Carol! Lindo lindo lindo! Por um momento quase desisti contigo, mas foi muito gratificante continuar! :)) parabéns! A ti, ao paizão e ao Arthur. :)) beijão

  3. Emocionante filha!!! Embora eu sempre tenha te estimulado a saber que não existe absolutamente nada que tu não possas fazer,foi preciso dor,desejo ,força ,amor e fé!!! Tudo isso te fez ser grande,ser forte e conseguir.Não há neste mundo nada que uma mãe não seja capaz por um filho…até mesmo respeitá-la neste momento e ficar em casa ,em oração enquanto passavas por tudo.Sei que este foi o melhor que podia fazer por vcs e é assim que te criei,para ser independente,forte,fragil,tudo o que desejares e saber que sempre que quiseres,tua mãe estará sempre aki.Agora deves saber bem disso,”Não há montanha que me impesa de estar contigo”….

  4. Estou no centro, tomando um café antes do curso de gestante e me emocionei muito com teu relato. Não vejo a hora de ter minha filha e passar por essa experiência linda. Obrigada por compartilhar essa história!

  5. Queee lindo Carol!
    Chorei até um pouquinho. Te confesso que minha família inteira é contra o parto normal, mas lendo o teu relato me deu uma nova visão para este tipo de parto.
    Parabéns pela tua coragem e força e parabéns pelo teu Arthur lindo!
    Muitas felicidades para vocês querida.
    Beeeeijão!

  6. Chorei lendo o que tu escreveu carolzinha, pois acompanhar toda essa gestação foi maravilhoso, e hoje tenho certeza que tu só tem a contar coisas maravilhosas! Carol tu vai ter momentos que só tu vai enxerga pequenos gestos, jeitos, olhares, carinhos, estes vão ser o SEU momento Mãe! Sei que este amor é algo que tu não consegui explicar,cuida, ama, aperta, pois passa muito rápido é igual a barriga tenho certeza que parece que foi ontem tudo,e afinal o filho homem é da mãe, então jaciel acho melhor providenciar a Olivia hahaha saudades te adoro muito carol ❤ minha sombrinha 😉

  7. Carol é muito lindo ver tanta transformação acontecendo com voces, ambos se tornando pais, decididos, fortes, sabendo o que queriam e indo atrás. Hoje uma familia que nasce sob o signo da cidadania. Voce mulher e mãe ; ele homem e pai. Lindo relato , ele vai inspirar muitas mulheres.

  8. Olha, já li muitos relatos de parto….mas, este realmente me emocionou demais! To aqui que nem boba com tudo que você disse, Carol! Parabéns e muita saúde para o seu bebe. Bjs!

  9. Parabéns e Bênçãos a esta família que o Universo acohe. Acredito que o parto é um momento de renascimento para a mulher. Seu relato é contribuição para o melhor no mundo.

  10. Que lindo texto! Obrigada…Me ajudou muito a me preparar para o meu parto, estou com 33 semanas e sedenta de informações!
    Seu filhote é uma doçura!
    bjs

    • Rhenata, muito obrigada! Escrevi exatamente pra incentivar e tranquilizar mais mamães, que bom que consegui! Uma boa hora pra ti com muito amor e tranquilidade! Depois passa aqui pra me contar como foi e avisar que o baby chegou. Beijo

  11. Querido Arthur, você nasceu um mês antes de minha filha Zoe, menino! rs Bom, pelo que entendi foi, 29 de set, não? E olha, pelo que enetndi também, seu pai foi quem soube saber em quanto estava a dilatação de sua mãe. 1.000 pontos pro seu velho, aí. Muita luz para vc, pequena maravilha 🙂 abs e mais alegrias para a família aí.

    • ❤ Oi Jorge, Arthur nasceu no dia 1º de setembro, na verdade quem viu a dilatação foi o dr Ricardo, que estava na minha casa. Mas o Paizão foi nota 1.000 mesmo, porque ele que segurou a minha onda o dia todo em trabalho de parto, já que só chamamos a equipe quando a noite chegou e o tampão saiu.
      Muitas alegrias pra vocês e a princesa Zoe!

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